segunda-feira, 18 de abril de 2011

UMBANDAMOR- MENSAGEM DE RAMATIS SOBRE A UMBANDA

RAMATIS E A UMBANDA

Por Alexandre Cumino







Ramatis é o nome da entidade, de origem oriental, que psicografava por
Her­cílio Maes, tinha uma proposta espírita/kardecista, no entanto por
abordar ques­tões como a Magia (Magia de Redenção), a Vida no Planeta Marte,
a Vida de Jesus (O Sublime Peregrino) e a Umbanda tornou-se um autor
polêmico no meio espírita, aceito apenas por adeptos menos ortodoxos.

É o mesmo caso da obra de Rochester, na pena da médium russa Wera
Krijanowskaia, final do séc. XIX, que enfren­ta a mesma polêmica por
adentrar o mundo do fantástico e da magia.



No Livro dos Espíritos Kardec é claro no que se refere a magia como vemos
abaixo:



551. Pode um homem mau, com o auxilio de um mau Espírito que lhe seja
dedicado, fazer mal ao seu próximo?

"Não; Deus não o permitiria."



553. Que efeito podem produzir as fórmulas e prática mediante as quais
pessoas há que pretendem dispor do concurso dos Espíritos?

"O efeito de torná-las ridículas, se pro­cedem de boa-fé. No caso contrário,
são tratantes que merecem castigo. Todas as fórmulas são mera charlatanaria.
Não há palavra sacramental nenhuma, ne­nhum sinal cabalístico, nem talismã,
que tenha qualquer ação sobre os Espíritos, porquan­to estes só são atraídos
pelo pensamento e não pelas coisas materiais."

a) – Mas, não é exato que alguns Espí­ritos têm ditado, eles próprios,
fór­mulas cabalísticas?" Efetivamente, Espí­ritos há que indicam sinais,
palavras es­tranhas, ou prescrevem a prática de atos, por meio dos quais se
fazem chamados conjuros. Mas, ficai certos de que são espíritos que de vós
outros escarnecem e zombam da vossa credulidade."



Se para o Espiritismo radical estes autores não se enquadram inteiramente na
codificação de Kardec, onde a magia é colocada de lado, no entanto foram
lidos e apreciados por umban­distas, que sempre buscaram explicações para
sua religião e sua magia á luz do Espiritismo.



Numa outra oportunidade podemos analisar a magia de Ramatis e Rochester,
aqui va­mos buscar algumas conside­rações de Ramatis sobre a Um­banda na
obra Missão do Espi­ritismo, concluída em 1967, onde tece elucidações sobre
o Espiri­tis­mo em comparação com ou­tras religiões e filosofias.

O maior de todos os capítulos é justamente dedicado a Umbanda, com 69
pá­ginas (Rio de Janeiro: Ed. Livraria Freitas Bas­tos, 1996). Vejamos
al­gumas destas conside­ra­ções feitas por Ramatis lembrando que ele escreve
à partir de sua época e con­texto:



A Umbanda é como um grande edifício sem controle de condomínio, onde cada
inquilino vive a seu modo e faz o seu entulho! Em conseqüência, o edifício
mostra em sua fachada a desor­ganização que ainda lhe vai por dentro! As
mais excêntricas cores decoram as ja­nelas ao gosto pessoal de cada
mora­dor; ali existem roupas a secar, enfeites exóticos, folhagens
agressivas, bandei­ras, cortinas, lixo, caixotes, flores, vasos, gatos,
cães, papagaios e gaiolas de pás­saros numa desordem ostensiva. De­bruçam-se
nas janelas criaturas de toda cor, raça, índole, cultura, moral, condição
social e situação econômica, enquanto ainda chega gente nova trazendo novo
acervo de costumes, gostos, tempera­mentos e preocupações, que em breve
tentam impor aos demais.

Malgrado a barrafunda existente, nem por isso é aconselhável dinamitar o
edifício ou embargá-lo, impedindo-o de servir a tanta gente em busca de um
abrigo e consolo para viver a sua expe­riência humana. Evidentemente, é bem
mais lógico e sensato firmar as diretrizes que possam organizar a vivência
provei­tosa de todos os moradores me comum, através de leis e regulamentos
formulados pela direção central do edifício, e destinados a manter a
disciplina, o bom-gosto e a harmonia desejáveis! (p.130-132)



É provável que alguns entendidos do hermetismo egípcio e da escolástica
hindús pretendam provar que a atual doutrina umbandística provenha
diretamente do sentido original e iniciático de Umbanda, como a "Lei Maior
Divina" subentendida nas velhas iniciações. Mas a ver­dade é que entre os
africanos, a sonância de tal palavra nada tinha de iniciática ou
signi­ficação de legislação cósmica; porém, abrangia a vulgari­dade das
práticas mediúnicas feti­chistas , no intercâmbio ritua­lís­tico com
espíritos primários e elementais da natureza, assim como toda sorte de
sortilégios, crendices e cultos aos mortos!



(...) Assim, as relações mediúnicas com espíritos de índios, caboclos,
pretos e congêneres, nas prá­tica ritualísticas dos ter­reiros e conhecidas
como de Umbanda, só significam seita, doutrina ou movimento religioso com
atividades mediúnicas de origem africana, num sen­tido exclusiva­mente
benfei­tor e oposto ao que se presume ser Quimbanda!

Apesar do louvável empenho dos umbandistas em atribuírem a origem de sua
seita a fontes iniciáticas do Egito, da Caldéia ou da Índia, o certo é que a
dou­trina de Umbanda, atualmente praticada no Brasil, deriva
fundamentalmente do culto religioso da raça negra da velha África. Os seus
princípios doutrinários não se vin­culam à magia ou escolástica de qualquer
ramo iniciático ou bastardo das religiões e cultos egípcios, hindus,
caldaicos, assírios ou gregos. Eles são realmente frutos do "folclore", dos
provérbios, aforismos, das lendas, crenças populares, canções e tradições do
negro africano. O vínculo do negro persiste implacável, apesar da penetração
do branco e das tentativas dos ocidentais considerarem a Umbanda uma seita
exclusivamente originária de antigas confrarias do Oriente.(p.136)



Indubitavelmente, a Umbanda, como seita, ainda não passa de uma aspiração
religiosa algo entontecida , mas buscando sinceramente uma forma de elevada
representação no mundo. Não apresenta uma unidade doutrinária e ritualística
conveniente, porque todo "terreiro" adota um modo particular de operar e
cada chefe ou diretor ainda se preocupa em mono­polizar os ensinamentos pelo
crivo de convicção ou preferência pessoal. Mas o que parece um mal
indesejável, é conse­qüência natural da própria multiplicidade de formas,
labores e concepções que se acumulam prodigamente no alicerce fundamental da
Umbanda!

Aqueles que censuram essa insta­bilidade muito própria da riqueza e
variedade de elementos formativos umbandísticos, são maus críticos, que
devido à facilidade de colherem frutos sazonados em numa laranjeira
crescida, não admitem a dificuldade do vizinho ainda no processo de
semeadura!(p.130)



(...) Apesar dessa aparência doutri­nária heterogênea, existe uma estrutura
básica e fundamental que sustenta a integridade da Umbanda, assim como um
edifício sob a mais flagrante anarquia dos seus mora­dores mantém-se
indestrutível pela garantia do arcabouço de aço!

Da mesma forma, o edifício da Um­ban­da, na Terra, continua indeformável em
suas "linhas mestras"...(p.131)



(...) Os mentores da Umbanda, no momento, preocupam-se em eliminar as
práticas obsoletas , ridículas, dispersivas e até censuráveis, que ainda
exercem os umbandistas alheios aos fundamentos e objetivo espiritual da
doutrina. Sem dú­vida, uns adotam excrecências inúteis e abu­sivas no rito e
características doutri­nárias de Umbanda, por ignorância, alguns por
ingenuidade e outros até por vaidade ou interesse de impressionar o público!
Inúmeras prática que, de inicio, serviram para dar o colorido doutrinário,
já podem ser abolidas em favor do progresso e higienização dos
"terreiros"!(p.132)

Esta é a palavra de Ramatis, direta e franca sob o seu ponto de vista,
escrito na década de 60, ainda hoje encontramos muito o que ele critica na
postura do umbandista e faço crer que estamos caminhando para uma melhora no
sentido de entender o que é e como praticar a Umbanda.



Muito provavelmente não vamos caminhar para uma unidade doutrinária de
Umbanda, no entanto é possível caminharmos para uma conscientização do que é
a pratica de Umbanda.



O Consenso da data de 15 de No­vembro de 2008 como centenário da Umbanda já
apresenta um grande progresso, pois possibilita remontar a história material
da Umbanda no Brasil, independente de suas origens culturais, espirituais e
míticas.

Já não se fala mais em seita ou movimento umbandista, a Um­banda é uma
religião concreta, nova e brasileira.



Assim como o cristianismo tem vários segmentos cristãos (Catolicismo,
Luteranismo, Metodista, Presbiteriano, Pentecostal etc.) a Umbanda também
tem linhas doutrinárias variadas que muitas vezes se definem como Umbanda
Branca, Umbanda Esotérica, Umbanda Trançada, Umbanda de Caboclo e outras, no
entanto existe o que Ramatis chamou de estrutura básica e fundamental que
sustenta a integridade da Umbanda que é em si a essência da Umbanda, onde se
alicerçam os estudos Teológicos de Umbanda como ponto de partida ou
paradigma para entender suas várias, outras, expressões.


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